terça-feira, 23 de dezembro de 2014

o livro à leitura





 “Ninguém resiste a uma história, principalmente a uma história bem contada”
Affonso Romano de Sant’ana

“Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.”
Rubem Alves


 

Leitura e prazer são indissociáveis A leitura passa pelo prazer de descobrir algo novo, de sair da realidade e entrar em outra dimensão onde tudo se processa de forma prazerosa.
Sabe-se que a prática da leitura deve ser estimulada desde a infância, antes mesmo de a criança entrar na escola; antes mesmo de nascer.
Quando trabalho “leitura” com professores do ensino fundamental, e sempre que vejo algumas professoras grávidas, costumo perguntar: “Já leu algum livro para essa criança?” E antes que elas respondam, eu digo: Se não leu, já está atrasada.”
Em verdade, a infância é a fase de instigar, deslumbrar, despertar e convencer esse leitor por meio do manuseio do livro, da observação do texto, das ilustrações, da cor, do formato, do cheiro. É a fase de desenvolver na criança a noção de que o livro é um bem cultural e que deve se transformar em “objeto de desejo” tal qual um brinquedo exposto na vitrine. E nessa fase, a presença do mediador de leitura (pai, mãe, avô, avó) é indispensável, porquanto é a hora da semeadura.
Lembro-me de quando era bem pequena, ainda, da hora mágica da contação de histórias por D. Luizinha, descendente de escravos, apresentava-nos todo o fantástico universo das histórias infantis que aprendera não sei com quem. E nós, no sítio da minha avó, ficávamos horas a ouvi-la e nem nos dávamos conta de que o tempo passara. Mais tarde, já sabendo ler, ouvíamos debaixo da mangueira principal, em frente à casa grande, meu primo que, do alto de uma pedra mais declamava que lia os folhetos de cordel, dos quais nunca me esqueci de um: “A princesa Rosalinda e o dragão”. Mais tarde, ainda, já leitora autônoma, devorava os livros enormes com letras e ilustrações azuis que meu irmão comprava em Recife: A bela adormecida, Branca de Neve e os sete anões e tantos outros. Hoje, leitora voraz, tenho nos livros uma das maiores paixões.
Quando se fala em leitura para criança, ela parece se subdividir em duas atividades: ler e contar. Um dos traços distintivos delas é que, ao se ler a história, ela é apresentada preservando as palavras escolhidas pelo autor. O leitor deve se manter fiel ao que está escrito.
Por outro lado, na contação da história a trama pode sofrer pequenas modificações, já que o contador tem liberdade para improvisar e agregar elementos a ela. Ele nunca conta uma história da mesma forma.
Parece-nos que o foco não deve ser a característica dicotômica das duas atividades, mas sim o “acontecer”. Ler ou contar, tanto faz desde que mais e mais crianças tomem intimidade com os textos, com as ilustrações, com os autores, com os ilustradores, enfim, com o mundo mágico dos livros.
Ademais, associado ao prazer da leitura ou da contação deve estar a responsabilidade e a obrigação de se expor as crianças ao maior número possível de bons livros e textos
O mais importante é que ler ou contar proporcionem um prazer tão duradouro que as crianças, ao se tornarem adultas, nunca se esqueçam do que é um livro.
Para Rubem Alves, As historias contadas têm o efeito da conquista por quem conta, e a historia lida desperta o interesse em folhear o livro. Essas duas formas de comunicação do leitor e ouvinte precisam de um cuidado no texto repassado, a maneira como foi lido, de que jeito a historia será interpretada.
            É ainda Rubem Alves que nos dá sua receita em

Primeiro a magia da história, depois a magia do bê-á-bá

[...]
Se eu fosse ensinar a uma criança
a arte da leitura,  não começaria
com as letras e as sílabas.

Simplesmente leria as histórias mais fascinantes que a fariam entrar
no mundo encantado da fantasia.

Aí, então, com inveja dos meus
 poderes mágicos, ela quereria que eu
lhe ensinasse o segredo que
transforma letras e sílabas em histórias.

É assim.
É muito simples.”

E, agora...  que tal assistir a dois vídeos? O primeiro é a contação,  por Giba Pedroza, da história “Margarida”, escrita e ilustrada por André Neves. O segundo,  a leitura do livro “Quem quer brincar comigo?, de Tino Freitas, com ilustrações de Ivan Zigg.


domingo, 14 de dezembro de 2014

A flor do maracujá





A flor do maracujá
 Catulo da Paixão Cearense


 “Não há, oh gente, oh não
Luar como esse do sertão”
Meus queridos leitores, quem de nós já não ouviu “Luar do Sertão? Pois essa música foi composta pelo poeta, músico e compositor maranhense, nascido em 1863, Catulo da Paixão Cearense. Muitos acreditam  que este era seu nome artístico, mas não é nada disso. Era mesmo o seu verdadeiro nome. Filho do ourives e relojoeiro Amâncio José da Paixão Cearense e de Maria Celestina Braga da Paixão, morou em São Luiz, no Estado do Maranhão. Sobre esse grande poeta, dizia Monteiro Lobato: "Catulo é bem a voz da terra brasílica".





Dentre suas composições, uma, em especial, me chama a atenção. É “A flor do maracujá”. Nos meus tempos de criança, ouvíamos a declamação dos versos e eu ficava encantada com a história daquela flor.

Uma das versões sobre essa flor, diz que, em inglês,  a expressão passion flower significa “flor de maracujá”. Está ligada à Paixão de Cristo. Consta que esta denominação tem origem entre os séculos XV e XVI, quando missionários espanhóis viram diferentes símbolos da Paixão na flor do maracujá. Segundo esses missionários, as dez pétalas e sépalas da flor representavam os apóstolos menos São Pedro (o negador) e Judas Iscariotes (o traidor). As cinco anteras representavam as cinco chagas. A coroa de espinhos foi vista nos filamentos. Os três estigmas foram associados aos pregos usados para furar as mãos e os pés de Cristo. As pontas das folhas foram tomadas para representar a Lança Sagrada. E os tentáculos ou gavinhas representavam o chicote usado na flagelação de Cristo.


A flor do maracujá
Encontrando-me com um sertanejo, 
Perto de um pé de maracujá, 
Eu lhe perguntei: 
Diga-me caro sertanejo, 
Porque razão nasce roxa, 
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhes conto, 
A estória que ouvi contá, 
A razão pruque  nasci  roxa, 
A frô do maracujá. 
Maracujá já foi branco, 
Eu posso inté lhe ajurá, 
Mais branco qui a caridadi, 
Mais branco do que o luá.
Quando as frô brotava nele, 
Lá pros confim do sertão, 
Maracujá parecia, 
Um ninho de argodão. 
Mais um dia, há muito tempo, 
Num meis que inté num mi alembro, 
Si foi maio, si foi junho, 
Si foi janeiro ou dezembro.
Nosso sinhô Jesus Cristo, 
Foi condenado a morrê 
Numa cruis crucificado, 
Longe daqui como o quê, 
Pregaro o cristo a martelo, 
E ao vê tamanha crueza, 
A natureza inteirinha, 
Pois-se a chorá di tristeza.
Chorava us campu, 
As foia, as ribeira, 
Sabiá tamém chorava, 
Nos gaio da laranjera, 
E havia junto da cruis, 
Um pé de maracujá, 
Carregadinho de frô, 
Aos pé de nosso sinhô.
I o sangui de Jesus Cristo, 
Sangui pisado de dô, 
Nus pé du maracujá, 
Tingia todas as frô, 
Eis aqui seu moço, 
A estória que ouvi contá, 
A razão pruque nasci  roxa, 
A frô do maracujá


Vamos ouvir a declamação do poema, por José Márcio Castro Alves

https://www.youtube.com/watch?v=uE-2d-ITIB8


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Maleficent












Ir ao cinema hoje em dia me faz voltar ao tempo em que isso era feito com um misto de expectativa e mistério (não se tinha àquela época, as informações sobre a história, atores etc). Um único cartaz sobre o filme aguçava a nossa curiosidade. Mas, como ia dizendo, ir ao cinema requeria todo um preparo especial, um certo glamour. Para se ter uma ideia, mesmo com o clima quente do Nordeste, usávamos luvas curtas, de organza, carteira combinando com os sapatos. Pois que ir ao cinema era um acontecimento muito importante na pequena cidade do interior.
Então, quando vou ver um filme, sinto-me um pouco criança outra vez. E quando vi o anúncio de Maleficent, fiquei animadíssima para (re)ver a figura central da princesa que foi adormecida.
O filme é uma versão moderna de A Bela Adormecida, com enfoque na arquitetura psicológica da Maleficent.  Aqui, quem faz a jornada mítica é a vilã e o destaque é para as consequências... o que acontece depois que alguém satisfaz os seus desejos e suas paixões.
A personagem principal  é retratada sem maniqueísmos óbvios; ela não é boa, nem má; ela não é frágil, nem forte. Ela não tem medo de agir conforme suas convicções e fazendo a Guerra por vingança ou na sua busca da redenção, sua intensidade é a mesma. É uma personagem multifacetada e rica, tão distante da vilania tradicional que desperta uma simpatia natural no espectador que torce para que ela vença.
O melhor do filme está na direção inteligente que consegue fazer com que o espectador se desprenda do contexto infantil e reflita sobre a ambição, as paixões, a vingança, o perdão, a redenção e o amor; e de como as decisões repercutem e atingem os que nos cercam.
A emoção atinge os píncaros logo no início do filme na cena alegórica do roubo das asas de Maleficent  expondo as feridas do universo: o estupro, a submissão, a tortura física e emocional, o abandono e a vingança.
Definitivamente, o filme não guarda nenhum resquício do universo criado por Walt Disney, retomando as narrativas medievais pontilhadas de enormes quantidades de dramaticidade pré-Irmãos Grimm.
Some-se a isso, a figura da belíssima Angeline Jolie em uma interpretação magistral.
Não sou expert em cinema, por isso limito-me a deixar aqui as minhas impressões sobre a história que nada mudou em relação à  eterna luta  entre o bem e o mal, evidenciando os sentimentos negativos ligados ao poder, à inveja, à ambição, à vaidade ferida, à vingança...
Embora sejam dois trabalhos distintos – o desenho e o filme – permanece na minha cabeça o fantástico dessa história infantil (?): o reino, os reis, as fadas, a princesa em suas diversas fases da vida, o príncipe, o cenário maravilhoso, o clímax na hora da maldição e o (in)esperado final romântico.
E eu, ali, esperando o instante mágico em que o poder da maldição é quebrado pelo beijo do príncipe apaixonado.
Voltei aos tempos de menina, mas o encantamento quebrou-se. Volto à realidade. Não existem príncipes encantados. Nunca existiram. Estamos diante de um conto de fadas moderno.  
No entanto, isso não desmereceu o filme. Antes, me levou a repensar a vida, a manter o foco na realidade e, sobretudo, a sopesar as nossas atitudes. E, principalmente, a refletir sobre o fato de que a todos nos é ofertada a chance de mudar.

O desfecho surpreendente fica por conta da universalidade do amor, cuja dimensão ultrapassa a visão romântica que se tem desse sentimento maior.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O poeta que virou passarinho








Dia 13 de novembro, Manoel de Barros poeta sul-mato-grossense, deixou-nos. Um dos principais autores contemporâneos do país, teve o Pantanal como tema de seus escritos. Do nada inventava coisas (linguagem) e de tanto inventar, aumentou o mundo.
O que falar sobre esse homem-menino que a vida toda brincou com as palavras, criando um universo lírico próprio; que saiu do lugar-comum para falar de coisas simples com a profundidade que só os iluminados sabem fazer? E, para não cair no lugar-comum, reproduzo aqui algumas palavras de Manoel de Barros.

"Sou um cara que ama brincar com palavras. Eu me criei no mato moda ave. O lugar onde me criei tinha só árvore, água e passarinhos. O lugar me inventou para fazer brinquedos. Comecei fazendo bola de laranjas e carros de latas de goiabada vazias. Depois me desenvolvi: comecei a fazer brinquedos com palavras. Mas por não conhecer o nome das palavras, eu batizava elas a meu gosto. Sou hoje um cidadão, inventor da língua de brincar. E me comunico em livros na língua de brincar. Não há nisso metafísica".

E esse poema:
.
O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros não morreu; como disse sua neta: “virou passarinho.”



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Dica de Leitura


Breve história de um pequeno amor




A “Dica de Leitura”  de hoje é sobre um livro muito especial, capaz de envolver o leitor com coisas simples da vida. Sabe aqueles problemas que ocorrem em nossa casa? São coisinhas corriqueiras que ficam incomodando até que um belo dia a gente decide resolver a parada. Pois bem, a nossa escritora Marina Colasanti teve um problema em sua casa. O que terá sido? A partir daí, a história se desenvolve tão singela e empolgante que você vive todas as emoções que a autora exprime.
“Cúmplice da narradora, o leitor é convidado a expandir seus horizontes, compartilhando as hesitações e os sucessos de uma narrativa que envolve  crescimento e desenvolvimento.”



Vale a pena passear pelas páginas do livro e acompanhar essa bela história de amor. A narrativa envolveu-me não somente pela escrita em prosa-poética, como também pelas ilustrações em calorosos tons pastéis evocando sentimentos de carinho e de aconchego que nos remetem à infância. Rebeca Luciani traduz, de maneira extraordinária, o texto de Marina Colasanti. Com seus tons marrons e alaranjados, a ilustradora conta um final não revelado pela escritora, em harmonia encantadora.
Como disse a própria autora, o livro foi escrito como uma carta de amor e de despedida.  Ao terminar a leitura, tive a certeza de que ele agradará a leitores de todas as idades.
Vamos à nossa leitura?

“Breve história de um pequeno amor”, da escritora Marina Colasanti, ilustrado pela argentina Rebeca Luciani, recebeu o Prêmio Jabuti 2014 (1º lugar na categoria “Infantil”).  Também recebeu o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) deste ano nas categorias Criança Hors-Concours e recebeu o selo de Altamente Recomendável.

Breve História de Um Pequeno Amor
Escritora: Marina Colasanti
Ilustradora: Rebeca Luciani

Editora: FTD

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Os ipês são uma festa




Os ipês são uma festa


Antes de a Primavera chegar, todos os anos, os ipês se enfeitam para anunciá-la. Cidades várias, no país inteiro, exibem seus ipês qual sinfonia colorida abençoando a natureza. No período da floração, os ipês despem-se de suas folhas que dão lugar às flores amarelo-ouro, rosas, brancas ou roxas – que estampam belas manchas coloridas nas paisagens do Brasil. Florescem de julho a setembro e frutificam em setembro e outubro.   Escolhi duas cidades para homenagear os ipês: Brasília e João Pessoa.
Em Brasília, esse espetáculo adquire uma conotação diferente porque durante o período da seca, a cidade se transmuta numa paisagem cinzenta com a grama crestada pelo sol inclemente do Planalto.
Porém, quando aquelas árvores desnudas de folhas começam a mostrar sua floração, sabe-se que a natureza começa a se enfeitar para receber a nova estação. Dá gosto vê-los por toda a parte qual arco-íris na terra. Olha aqui, estes amarelos com brilho dourado; olha ali, aquele cor-de-rosa, convidando ao amor; veja acolá, os brancos lembrando vestido de noiva; e o que dizer do roxo evocando energias abençoadas? Essa profusão de flores e de cores deixa-nos radiantes com tamanha beleza.
Entre tantas coisas que compõem a diversidade da paisagem brasiliense, há que se fazer uma leitura além do concreto, além da linha do horizonte, além do que somente a sensibilidade pode captar. É o que nos evoca essa dama  – Primavera – trazendo uma florada mágica que oferece à cidade alguns tons de fazer inveja a qualquer artista do pincel e das tintas.
Passando por João Pessoa, essa capital que de tão especial foi escolhida pela natureza para ser a primeira a recepcionar o sol no continente americano, pode-se apreciar o belo espetáculo que os ipês nos oferecem.
 Entre o verde-azul do mar e o verde constante das árvores que  se multiplicam por todos os locais, os ipês amarelos surgem como dançarinos executando um bailado, como se a cidade inteira fosse um grande palco.
No entanto, há um lugar especial onde eles esbanjam esplendor de pôr do sol, com um amarelo que encanta os visitantes. Sempre que estou na capital paraibana, na época da florada, passo um bom tempo admirando os ipês que circundam a Lagoa do Parque Solon de Lucena, pois constituem um espetáculo à parte. Pisar o chão alcatifado com flores amarelo-ouro é como se fosse pegar um tapete mágico e entrar em outra dimensão. É deixar-se ficar ali, sentada, sem nada fazer e fazendo tudo, ou seja, deixando-me envolver pela atmosfera mágica do local.

 É...  Sem dúvida, os ipês são uma festa para os olhos e para a alma!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Dia Nacional do Livro - 29 de outubro












“A vida está pulsando ali.
O livro faz parte da casa,
da comida, da experiência, da
maternidade, do cotidiano.”
Adélia Prado


Uma data sempre reverencia algo ou alguém, reaviva uma memória, alavanca uma ação, impulsiona um projeto, fixa raízes. É sempre interessante saber o porquê das datas. Por exemplo:
Você sabe por que comemoramos o Dia Nacional do Livro no dia 29 de outubro? Porque, em 1810, foi empreendida a primeira viagem com a Real Biblioteca Portuguesa, transferida, dessa forma, para o Brasil.
Quando se fala em livros e leitura no nosso país, há sempre a queixa generalizada de que o país lê pouco, de que não há bibliotecas, de que há um déficit de livros. A despeito disso, sabe-se que ações governamentais e de entidades não governamentais estão impulsionando a leitura nas escolas, especialmente as da educação infantil e básica, terrenos férteis para se lançar as sementes da leitura.
No entanto, apesar da riqueza cultural e dos esforços realizados, estatísticas mostram que, em algumas regiões do Brasil, a leitura ainda é considerada privilegio de poucos, como algo elitizado e de difícil acesso. Isso representa um quadro preocupante, tendo em vista que  a Literatura Infantil e a Infantojuvenil favorecem a apropriação da leitura por parte da criança que, partindo da própria realidade, passa pelo mundo da fantasia para construir e reconstruir ideias, sentidos e sentimentos já presentes neste nesse pequeno leitor.  
Para ilustrar o valor do LIVRO em qualquer idade, em qualquer cultura e sob qualquer forma, trago para vocês, leitores desta coluna, a sugestão de leitura de “A paixão pelos livros”
uma antologia de crônicas, contos e depoimentos de quem achou no livro seu paraíso particular e na leitura uma forma de abstrair-se das dores do mundo para nele encontrar algum sentido.
Desse livro, retiro um trecho da crônica Loucura Mansa, do escritor José Mindlin:
PARA MIM É DIFÍCIL FALAR SIMPLESMENTE de gosto pelos livros, porque em matéria de livros meu caso é muito mais grave: é um amor que vem desde a infância, que me tem acompanhado a vida inteira, e ainda acima disto, é incurável. Não se trata por isso de um interesse periférico, e o prazer que me tem proporcionado em todo este longo percurso faz com que tenha procurado, permanentemente, desejar que muito mais pessoas possam também desfrutá-lo. Daí eu aproveitar qualquer oportunidade que me surja (e esta espero que seja uma delas) para inocular o vírus do amor ao livro em todos os possíveis leitores que já não o tenham adquirido anteriormente.
O prazer que o livro pode trazer tem múltiplos aspectos. O primeiro, fundamental, que é óbvio, mas muita gente não se dá conta disso, é o da leitura, através da qual se estabelece um contato com o mundo exterior que abre, para o leitor, horizontes ilimitados. O livro informa, distrai, enriquece o espírito, põe a imaginação em movimento, provoca tanta reflexão como emoção, é, enfim, um grande companheiro. Companheiro ideal, aliás, pois está sempre à disposição, não cria problemas, não se ofende quando é esquecido, e se deixa retomar sem histórias,  a qualquer hora do dia ou da noite que o leitor deseja.”

Tudo isso nos leva a uma reflexão sobre a importância desse nosso maior bem cultural – LIVRO - e a considerar que todos os dias do ano deveriam ser “Dia do Livro””.
E, como disse Castro Alves,
“Oh! Bendito o que semeia
Livros, livros, à mancheia

E manda o povo pensar”

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Professor

Professor




Em outubro, uma comemoração importante se impõe: “O dia do professor”. São muitos “parabéns”, muitas homenagens... Professora desde muito jovem, hoje fico a imaginar se uma criança sabe quem é e o que faz esse ser multifacetado chamado “professor”
Imaginemos o diálogo abaixo:

Quem é você?!
 - O que você faz?
 - Muitas coisas.
- O que, por exemplo?
- Sou ajudante de mãe.
- Mas eu nunca vi você lá em casa.
- É assim: quando você nasce, é só você e sua mãe. Depois de um tempo, eu apareço para ajudar a mamãe.
- Mas eu nunca vi você lá em casa. Onde você ficava?
- No seu primeiro dia de escola, eu estava lá.
- Mas, e o que você faz?
- Sabe a massinha com que você faz os bichinhos? Então, você pega a massinha, vai brincando com ela até ela virar o bichinho que você queria. Eu também faço a mesma coisa com você: brincamos, caminhamos juntas até você crescer.
- E só isso que você sabe fazer?
- Eu também canto, danço, corro, desenho, pinto, conto histórias,  ajudo você com os números;  andamos  de mãos dadas, cantamos, fazemos adivinhas, brincamos de trava-línguas e de parlenda; dou cambalhotas, viro palhaço, príncipe, princesa, rei, rainha, fada, bruxa, sapo encantado...  Uma hora sou médico, outra, enfermeira e, se precisar, sou até mãe e pai. Às vezes, sou avô, avó, tio e tia. E aprendo muito com você. Juntos, construímos o mundo.
- Nossa!  Você faz tudo isso? Qual é o seu nome?
- Professor!









quinta-feira, 24 de julho de 2014

Primeiro a magia da história, depois a magia do bê-a-bá






            
Rubem Alves


Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem,
não começaria com as lições das pás,
 enxadas e tesouras de podar.

Levá-la-ia a passear por parques e jardins, mostrar-lhe-ia flores
 e árvores, falaria sobre suas maravilhosas
simetrias e perfumes; levá-la-ia  a livrarias, para que ela visse,
nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo.

Aí, seduzida pela beleza  dos jardins ,ela me pediria para
ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras do poder.

Se eu fosse ensinar a uma criança a beleza da música,
não começaria com partituras, notas e pautas.

Ouviríamos juntos as melodias
mais gostosas e lhe contaria sobre
os instrumentos que fazem a música.

Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria
 que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas
 pretas escritas sobre cinco linhas.

Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas
ferramentas  para a produção da beleza musical.

Se eu fosse ensinar a uma criança
a arte da leitura,  não começaria
com as letras e as sílabas.

Simplesmente leria as histórias mais fascinantes que a fariam
entrar no mundo encantado da fantasia.

Aí, então, com inveja dos meus  poderes mágicos, ela quereria que eu lhe ensinasse o segredo que  transforma letras e sílabas em histórias.

É assim. É muito simples.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

PERDER, GANHAR, VIVER





Perder, ganhar, viver!

Carlos Drummond de Andrade (1982)
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?